origamei

Tenho um sem-número de projetos na gavetinha da minha cabeceira interna, que, na verdade e com mais precisão, é um armário gigante e infinito de gavetas que nem sequer fecham direito. Eu juro que não esqueço deles – converso, dou carinho, umas comidinhas, uns sonhos de que um dia eu vou ter mais tempo e amor pra eles. Mas é com uma facilidade surpreendente que, meio malvadamente, empurro-os para os fundos da gaveta em troca de outros projetos, aleatórios e espontâneos e absurdinhos, que me surgem no caminho. O da vez: aprender a fazer origamis.

Há umas semanas, conheci a Aoi, uma japonesa de Osaka que, já há um ano, mora na Finlândia. Viramos amigas numa conversa de sofá. Aoi sabe contar histórias. Foi muito bonito passar umas horas sentada ao lado dela, num dia meio fora do tempo, só ouvindo e pintando imagens na minha cabeça. Ela me contou tanto, tanto, e um monte desse tanto fez uns rasgos em mim – ainda volto aqui para escrever a respeito. Mas uma das coisas mais surpreendentes que ela me mostrou foi a habilidade em dar vida a guardanapos sem graça de forma meio mágica.

Estávamos ela, eu e mais um grupinho sentados ao redor de uma mesa comprida em meio a um casamento finlandês. Alguém falava no microfone há algum tempo, e desde as primeiras consoantes, eu já passeava com os olhos pelo salão, me mexendo na cadeira lá e cá pra dar conta do meu corpo, que já tinha cansaço e pesava. Comecei a brincar com um enfeite que morava em cima da mesa, enrolando-o no meu dedo, e depois peguei um guardanapo de papel e passei a picá-lo em pedaços minúsculos – tenho essa mania esquisita. Do meu lado, despretensiosamente e num momento qualquer, enquanto eu fazia a maior catástrofe papélica sobre a toalha toda fina, Aoi puxou um guardanapo. Com uma agilidade incrível, fez o que, para os meus olhos de criança, pareceu mágica: um origami de sapo! E ele saltava!

Larguei os meus papéis picados e fui brincar. Obviamente, Aoi virou a sensação da mesa. Todo mundo queria brincar também com aquele bichinho que, de repente, nasceu ali na mesa, feito do mesmo guardanapo que eu, pateticamente, havia transformado em confete e esparramado pela mesa. Fiquei impressionada, e decidi, naquele dia, que eu ia aprender a fazer origamis. Sim. Não. Não decidi nada. Só achei fascinante, desejei saber, coloquei na gavetinha da frente da cabeceira de dentro, e voltei a picar papeis, enquanto o finlandês, entre consoantes dobradas e ää e öö e yy, seguia dançando sôfrego pelo meu ouvido.

Acontece que, uns dias depois, enquanto eu namorava uns títulos numa livraria, me deparei com um livro do gênero faça-você-mesmo-origamis. Foi como se aquela gavetinha, fechada uns dias antes, tivesse se aberto sozinha. Fiquei intrigada. Peguei um papelzinho quadrado que tinha no bolso e abri uma página aleatória do livro. Como fazer uma flor, dizia. Resolvi tentar. Fiquei ali de pé mesmo, escorada numa prateleira, dobrando o papel ridiculamente pequeno de cá pra lá e pra cá de novo, bem no meio da loja.

De repente, a mágica: uma flor!

Bem, não era exatamente uma flor, mas meio que uma pétala, ou algo parecido. Na verdade, pra flor ser inteira, teria que fazer mais uns sete ou oito daqueles pedaços que segurava agora na mão. De qualquer forma, aquela mini-vitória me fez anotar mentalmente, com caneta-rosa-e-purpurina, que precisava muito começar um projeto-origami. E nem deu tempo de colocar a ideia na gaveta.

Naquela noite mesmo, sentei teimosa em frente ao computador armada de um chá quente e muitos papéis quadrados e, hamham, dos meus dedos que, antes, só nascia confete de guardanapo, saíram: um cachorro, um coração de asinhas, um dragão meio torto e, hamham de novo, um tsuru, aquele passarinho-de-boa-sorte. Fiquei mais de uma hora pra dar vida às minhas obrinhas – aliás, postei as fotos dos quatro filhotes de papel no instagram da @a_geladeira, será que alguém viu?

Fazer aqueles origamis foi minha meditação do dia – tão concentrada que estava sobre as dobraduras, até esqueci do chá, que morreu frio na caneca – e está virando uma mania leve, que faz coceirinha e sorriso quando dá certo! Obviamente, não aprendiaprendi a fazer origami numa noite só – o que fiz, foi executar os passos rigorosamente. Pra aprenderaprender, acho, tem que deixar entrar pelo coração, e isso, só o tempo faz. De qualquer jeito, soltei balões de alegria por dentro quando, antes de dormir naquela noite, coloquei os quatro origaminhos na prateleira do quarto.

E para quem tem 20448220 projetos na gaveta também, minha dica-de-amor: abre a gaveta, uminha só! Ou deixa todas elas sempre abertas – vai que um projeto novo, aleatório, incrível e meio absurdinho tá procurando lugar pra morar? É bom viver correndo esses risquinhos!

o primeiro café_ oak & ice & as florzinhas em cima da mesa

saí de casa com o meu computador e um livro sabendo só que, às 18h30, teria uma aula de dança afro num endereço já anotado na agenda. pensei em buscar um café meio perto do local, assim teria tempo suficiente para pegar um ritmo de leitura sem ter que sair correndo apressada e atrasada (obviamente, isso aconteceu mesmo eu estando do lado do lugar da aula. contece).

vindo com o M10, uma das linhas do bondinho amarelinho bonitinho que cruza as ruas de berlim, desci na estação Eberswalderstraße e segui cem por cento errante pela Schönhauser Allee, uma avenida movimentada e recortada por árvores e trens e restaurantes e focos de cheiro de curry na calçada. minha memória desvairada dizia que eu já estivera ali em outro momento. tinha uma lembrança antiga de ter comido um hambúrguer com geleia em algum lugar naquela rua – hamburgers com geleias são, por razões óbvias, inesquecíveis!

saí do tram com o olho aberto caçando um café que me acolhesse, eu e meus textos, por algumas horas, e não tinha a mínima ideia se encontraria mesmo algum. mas berlim facilita a vida de pessoas procurando cafés acolhedores, porque há cafés acolhedores por todos os cantos. andei cinco minutos para achar um. do outro lado da rua de onde eu vinha, ele chamou a minha atenção pelas bandeirinhas coloridas de são joão, que com certeza nada tinham a ver com são joão, e pelo letreiro grande que gritava o nome do lugar:  OAK&ICE.

embora a atração principal sejam os sorvetes artesanais – natural born ice cream, dizia o cardápio fofísississimo –, há também uma oferta super variada de tortas absurdamente bonitas e bolos com cara de morda-me-agora e uns tais de chias puddings expostos numa vitrininha. depois de dar uma flertada com as delicinhas, segui meu protocolo/check list pessoal – afinal, estava ali para trabalhar, ham, ham:

ver se tem uma mesa numa altura legal, com acesso fácil à tomada,

observar se a música ambiente é ambiente mesmo, ou baladinha disfarçada,

sentir a iluminação do espaço, se dá para ler tranquilamente ou se vai rolar dor de olho depois,

perguntar se tem uma internet funcionando e,

não menos importante, checar o preço do café (com leite, ou cappuccino, sem frufus) e ver se tem leite vegetal ou sem lactose.

iés para tudo, pedi o café e me instalei num cantinho. (ah, também recebi o simpático aviso da garçonete para que eu não baixasse nada ilegal da internet. falou isso embolada num constrangimento tal, que só consegui responder com um, fazer o quê, ia ter que mudar um pouco os meus planos da tarde, mas tudo bem. ela riu e eu fiquei feliz de ter quebrado o gelo. Ice. Gelo. Oak&ice. Gelo. Ice. tá).

quando sentei no banco de madeira que tinha maior estilo de banco de praça, e esparramei minhas ferramentas pela mesa de concreto que dava para ajustar (ponto importante também, já que dava para empurrar, puxar, trazer pertinho, deitar em cima etc), o mini relógio à la estação de trem pregado na parede do café marcava duas da tarde. dali para a hora que saí, umas seis e quinze, a composição do lugar mudou em constantes.

logo quando cheguei, dois outros homens trabalhavam com seus respectivos computadores na mesa da frente, e um casal tomava um café na mesa ao lado, enquanto a filha-bebê brincava na brinquelândia que tinha aos fundos do café. cada um com seus brinquedos, mas eu quase trocaria o meu computador por uns trocinhos que ela ficava apertando e que falavam umas coisinhas bonitas.

ao longo daquelas quatro horas e bolinha, mais famílias com bebês chegaram, mais bebês brincaram, uns risinhos aqui, uns chorinhos ali, umas várias pessoas entraram para pedir sorvete, saindo em seguida – até uma fila se formou a certa altura, mas a fila anda mesmo e anda rápido por aqui –, um cachorro bonito de pelo marrom tipo terra fofa ficou espreguiçado nos pés de um moço por horas enquanto ele conversava com uma moça que, suspeito, seja a dona do lugar, uma garçonete escreveu alguma coisa na janela que servia de cardápio, depois ela foi embora, aí entraram outros atendentes, alguém espirrou, por aí foi. óbvio que um zilhão de outras coisas aconteceram. mas foram esses os registros que fiz durante os meus passeios de olho.

uma das coisas mais legais desse café – pequena, singela e que muda a experiência de habitar ali por um tempo – são as flores fresquinhas mergulhadas num vasinho pequeno sobre a mesa. é um nada que faz brotar sorriso e cria um outro tempo. e, automaticamente, inspiração para seguir trabalhando.

no meu bancocadeira, me esparramei bem. ele tinha as dimensões ideias para eu me sentar de qualquer jeito: flor de lótus, uma perna no joelho, um pé pra cima – enfim, o corpo e as ideias ficam com mais possibilidades de existir quando há mais espaço, e eu gosto disso! apoiado no vasinho com as flores, um cartãozinho de bem-vindx também fazia charminho. na ilustração, uma esfinge contemporânea às avessas: pernas de gente, corpo de cupcake! minha conclusão é que um lugar que faz de alguém metade perna, metade cupcake só pode ser legal. a foto, postei no instagram da @a_geladeira, será alguém viu?

o café fica em berlim, capital alemã, mas mais do que isso, fica em berlim, capital de muitos lugares e pessoas ao mesmo tempo. por isso, a língua operante ali era inglês – inclusive, por parte dos atendentes. isso mesmo não sendo aquela região exatamente ou extremamente turística. acho que, enfim, é só berlim. consegui dividir meu tempo entre observar os detalhes dos quadros expostos na parede, todos no estilo pernas-de-gente-corpo-de-cupcake, ver as pessoas babando olho pras comidinhas da vitrine e mergulhando a língua no sorvete, e as minhas tarefas do dia. e me banquei, com muito amor, um mousse de chia com abacate e kiwi ao final de um texto infinito. mas volto lá para os sabores inusitados de sorvete. e, bem provavelmente, pra engolir mais uns textinhos diluídos num cafezin. se der tempo, ainda no verão e sem livros, só para sentar nas cadeirinhas do lado de fora e passear com o olho pela rua!

ps: a hamburgueria de hambúrger de geléia fica do-la-do do oak&ice. descobri meio correndo, na saída, já atrasada pra aula de dança, e sonhei em voltar ali de novo. sem trabalho, claro!

o café

há um tempo, inventei para mim a mania de trabalhar em cafés. ainda em florianópolis, passei a buscar espaços amigáveis para a minha rotina de estudo, com uma tomada, uma cadeira minimamente confortável, uma mesa numa altura legal, internet e um cafezinho em conta, que não pesasse no meu orçamento de estudante. habitar esses lugares de passagem, cheios dos mais diversos vucuvucus, e conseguir, mesmo assim, criar jardim de leitura e escritura, virou quase um viciozinho. me faz bem, e faz bem pro meu trabalho.

gosto de me incluir na paisagem das coisas mínimas que se sucedem aleatoriamente num lugar assim. gosto de ser só mais uma pessoa trabalhando com um computador e uns livros enquanto, na mesa ao lado, um alguém lê um jornal, lá fora vai um carro, a garçonete passa um paninho sobre a bancada, o garçom varre uns grãos perdidos pelo chão, outro alguém pousa a taça no pires, ao mesmo tempo que limpa, com a ponta da língua, a espuma de leite que ficou grudada no lábio.

há quem ache essa minha ideia muito estranha – como é possível alguém se concentrar num lugar com barulho de música e gente conversando e pires batendo em bandeja e copo quebrando, já me perguntaram  variadas vezes, não sem certa dose de razão. nunca soube responder  nem mesmo convencer ninguém dos meus porquês. só descobri e aceitei que, pra mim, é bom assim. o ambiente de um café me inspira a desescrever ideias, a prestar mais atenção, a reler e reler de novo uma frase com zelo, como se estivéssemos, eu e ela, a dividir a mesa e a conversar sem pressa. mas isso não é um argumento, e com certeza, não cabe a todo mundo. mas – de novo – pra mim, é bom assim.

num café legal, sinto que o tempo se estica. que os cheiros que passam em cima das bandejas me perfurmam as ideias. que todos os rasgos sonoros compõem uma espécie de silêncio, que permanece ao fundo e conduz os meus movimentos – ora lendo, ora escrevendo, ora mandando um email e anotando ideias, ora tomando um gole do café. e que as pequenas coreografias, sempre tão surpreendentes, que compõem a cena do lugar, são para mim a melhor forma de repousar o olho e o pensamento cansado da tela do computador.

por essas coisas todas, escrever sobre cafés acabou sendo uma ideia não exatamente original, mas orgânica. há tempos, plantei a vontade, mas até agora, nada de fazer dela flor. ainda bem que hoje chegou. uma quinta-feira quase qualquer, não fosse eu ter decidido que, ao menos essa ideia, posso procrastinar outra hora!

também acho que ter mudado por um tempo para berlim foi um belo incentivo para dar corpo ao que era antes só pensementinhas. mas não pense que é exclusividade de berlim guardar espaços assim: em florianópolis, onde estava antes, há muitas ruas que escondem cafés super receptivos a leituras e estudos – vou catar uns da memória para postar aqui também. e certamente aí desse lugar que você me lê, há também espaços assim, mesmo que lá atrás de onde ninguém sabe. tomara que A Geladeira sirva de ponto de encontro pra descoberta desses lugares, pra passeios, pra cafés, pra ideias e pra toda a poesia que habita tudo isso aí 🙂

do primeiro café, conto amanhã!

 

 

 

 

 

de poesia: nico

nico sentiu de repente um troço engraçado.

seu coração de pássaro palpipipipitava mais rápido que pé-que-dança. seu olho doía como se depois de uma aula de olhongamento. sentia espamos nos fins dos fios do cabelo e do pelo do pescoço. era como se quisessem desgrudar e sair voando. os dedos pianavam devagar, compondo com o ar algum semfonia. e o chão parecia que tinha esquecido de ser.

nico foi diagnosticado com poesia.

osumbigogogogoes

fiz um arquivo no word que chama:

chegando em berlim.

chegando em berlim eu tenho

eu preciso

eu quero,

dizia o arquivo

que dizia pra mim.

aí cheguei em berlim e

apaguei o arquivo

pra não ter

não precisar

não querer –

só  ir.

aí fui

e enquanto ia vi um homem sentado

na calçada coçava o umbigo

o dedo no umbigo

meu olho no umbigo

um mundo correndo passando atrás dele um trem cruzava passava por cima

daquilo

do meu olho e do homem

e do umbigo do homem

– porque já não há tempo

mesmo quando há janelas –,

gritava bem longe o zunido do trem,

– pra umbigos.

porque só há tempo

pros próprios umbigos.

mas:

os umbigos quaisquer são

zumbidos

em qualquer lista de ver

em qualquer lista-dever.

em berlim eu segui com o umbigo

na cabeça

e na cabeça o umbigo do homem encontrou outro

umbigo ou

umbiga?-memória

de uma menina num dia num trem num lugar que não lembro mas lembro

que vi

quescrevi

o dedinho dançando pela barriga

olhando o umbigo com a unha com a ponta e o dedo

parecia querer perguntar ei!  o que

você faz aqui bem no meio de mim?

e o umbigo aquietava

e o umbigo aquietava

um botão que não fala

um botão bem no meio do meio de tudo da gente

só cala

aperta e aperta e aperta ele

nada

esse lugar só pode ser incrível!!!

os umbigos

osumbi

osumbidos

osumbigogogogogogogoes