Histórias pra amaciar dentros /7/

dia sete é dia dezesseis de dezembro de 2017 e o último dia das histórias pra amaciar dentros! mas volto aqui loguinho mesmo. acho viciei nesse negócio de amacia-amacia ❤

(de abril de 2017)

Parei debaixo de uma árvore. Menos por desejo do relógio, que ponteirava pro compromisso dali a minutos. Foi por empurrão do olho mesmo. Era muita cor, muita cor. Flores recém-nascidas, depois de meses de casulo. Houve tempo em que duvidei de qualquer coisa além do cinza, me lembro direitinho. Mas agora se exibiam elas, todas flores, todas rosas, todas pétalas. O olho queme puxava também pro que quase não se via. Eram tanto, aquelas florzinhas: pequenas, delicadas, frágeis, macias. Mas alguma coisa me cantou de repente um diferente: aquela roupa de cetim que elas vestem é só de mentirinha. Porque de verdade elas nada têm de frágeis. Sei eu quantos séculos de evolução elas sobreviveram para conseguirem se erguer, assim, tão perto do meu olho que quase dentro, tão forte e tão altas que quase caio. Essa vulnerabilidade é só fantasia? Não, não, essa vulnerabilidade é a fortaleza, entendi num sopro! Esse mundo que empurra todo mundo a se construir de concreto em concreto pra dizer que só assim dá para viver – ah, esse mundo não empurra flor nenhuma. Vai guerra, vem arma, vai dor, vem o que for, e elas continuam nascendo pequenas, frágeis, singelas. Pega na mão, esmaga, já era. E a gente é diferente?

Cada flor é um sussurro no ouvido do peito de que: sensível e sim, tá tudo bem.

 

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Histórias pra amaciar dentros /6/

o dia seis é o dia dezesseis de janeiro de 2018.

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conheci joão dia desses, quando parei pra olhar as nuvens no ceú. meu olho cruzou com o dele, que via o mundo do topo do cabo de luz. pedi se por acaso ele sabia quando a chuva ia chegar e se dava tempo de eu dar um pulo na padaria ali da esquina.

ele esticou o pescoço e veio voando até mim. com um sorriso, disse que era bom eu apertar o passo porque aquela chuva ali era das sapecas. tinha acabado de nascer e adorava fazer estripulia no céu. soltei uma risada,  e perguntei como ele sabia tanto.

ele me contou que morava naquele cabo de luz fazia um tempo mais comprido que a linha do horizonte. já tinha aprendido a conversar com a chuva e com o sol e a falar língua de vento. é bom aqui, disse, mas falta o cheiro de manga.

fiz cara de curiosa e ele me contou que nascera e crescera num pé de manga. e quando ele resolveu deixar tudo pra trás, ninguém entendeu. todos os pássaros da vizinhança bateram no seu galho pra dizer que ele era doido.

joão, você é só um passarinho, piava sua mãe.

mas joão nem ouvia. queria era ver pra além da folha e do ninho. queria virar amigo do mundo, em vez de sentir medo dele.

quando descobriu o cabo de luz, vazio de ave, sentiu um ploc ploc no peito. uma chuva inteira de tristeza começou a cair no seu dentrinho. mas foi só joão pousar o pé que uma nuvem viajante gritou, com um sotaque engraçado: ei! como tu chama?

joão!, ele disse, escondido atrás da timidez.

a nuvem deu risada e falou que era pra ele ficar de olho, tinha umas outras amigas vindo lá atrás e elas andavam de mau humor. que era bom ele voltar pro galho dele.

eu moro nesse cabo agora, falou, convencido da verdade que acabara de inventar.

a nuvem fez uma cara de surpresa depois fez outra cara de peixe e seguiu navegando o céu.

joão me contou que aquela nuvem foi sua primeira amiga. ela voltou outras vezes. nuvens são boas de papo, contou ele. quanto maior elas forem, mais histórias carregam.

no meio da história, joão virou o pescocinho pra cima e voltou correndo pro cabo de luz, sem nem avisar. gritei “joão, obrigada”, mas não sei se ele ouviu.

fui à padaria e quando passava pelo casa do joão, senti uma gota gorducha na testa. nem respirei, e o resto da nuvem virou tipo balde na minha cabeça. senti o saquinho do pão virando piscina. parei e fiquei ali, desolada, quando ouvi uma risada bem pequenininha. virei o olhar pro céu e vi joão sacudindo as asinhas.

acho que foi um tchau.

Histórias pra amaciar dentros /5/

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dentro do bosque onde moro, mora também um parquinho. desses de escala-escala, gira-gira, pendura-pendura, brinca-brinca, riso-riso. só que toda vez que passo por ele, o que ouço é só silêncio triste. acho que o parquinho anda chorando por excesso de abandono.

mas outro dia, levando pensamento pra passear, ouvi um assobio. algo meio passarinho, daqueles que a gente só solta no mundo quando o coração da vida anda leve. fui entrando bosque adentro e descobri que o assobio vinha do parque. abracei uma árvore e fiquei quietinha, olhando de longe o que até o olho duvidava.

um senhor de barba branca, tão comprida que dava pra cachoeira, soltava no meio do parque umas notas de ave. foi até um brinquedo, deu um olhada aqui e ali, testou com o pé, foi até o outro, sentou, balançou pra lá pra cá. mas seu olhar pousou mesmo foi num terceiro brinquedo, a atração principal do parquinho: uma tirolesa.

entre as árvores, ela se esticava longa e imponente, mas bem mais inocente do que aquelas radicais que se vê em programa de esporte. o cabo se alongava por uns poucos metros e não muito longe do chão, um par de roldanas conectava o cabo a um pequeno balanço. era nele que o senhor de barba de cachoeira fixava o olho agora. cabeça pra cá, pra lá, ele se aproximou do brinquedo e, sem se demorar muito, foi até a escadinha que lhe dava acesso.

o que aconteceu depois, quase não cabe em palavra.

o senhor se ajeitou na tirolesa, tirou os pés da escada e, num impulso de vento, se jogou por aquele cabo curtinho. a aventura, em tempo de relógio, durou só uns segundinhos. mas pro senhor, deve ter sido em tempo de dança, que não se mede em segundices mas em eternidades. pra mim, demorou  mais que pôr-do-sol sem pressa.

deixei o parquinho com um sorriso pendurado em mim. o sorriso do senhor, que seguiu por ali, já tinha virado cachoeira. já quase perto de casa, ainda ouvia um assobio, mas era diferente. tinha tom de folha, e umas notas de árvore.

talvez seja esse o som que um parquinho faz quando sorri.

 

 

 

 

 

 

Histórias pra amaciar dentros /4/

o dia quatro é o dia treze de janeiro de 2018

inventário de um dia:

um ratinho correndo apressado pelos trilhos do metrô (só podia estar correndo apressado pra pegar o metrorato construído em 1659 debaixo do abaixo bem embaixo da terra sim sim)

uns passarinhos atravessando a rua

um sorriso comprido da mulher que passou do meu lado carregando um saco de batatas, mais outro sorriso que ela me brotou .

uma maria bethânia cantando bem alto no meu ouvido, espantando tipo saravá todo o frio pra lá

uns passinhos que inventei subindo a escada de casa

um chocolate com quente com gengibre

uns 30 abraços

umas 30 árvores (os abraços não vieram das árvores, mas que boa ideia!)

uma conversa de ponta-cabeça

um gole de um suco de laranjaperamaçã

um bebê no colo

uma parada de mão torta

 

um abacate com adesivo que dizia: já pode me comer!

um perfume gostoso de alguém que passou e ficou preso no meu nariz

etc etc etc

 

 

 

 

 

 

 

Histórias pra amaciar dentros /3/

dia três é o dia doze de janeiro de 2018:

 

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queria mandar uma carta pra uma árvore que encontrei certa vez. ela morava num mato lá atrás de um riacho lá. queria dizer que ela me fez bem, e que o perfume das folhas dela vinham visitar meu nariz de vez em quando.

me estiquei em sorriso quando descobri que as árvores aqui na alemanha têm endereço. rua, número, cep, essas coisas. o que ainda não sei é se elas têm caixinha de correio. quando passar o carteiro, vou perguntar. mas segundo a lógica que rege meus dentros,  deve ter algum buraquinho, sim, algum galho-alavanca que abra a barriga da árvore pra ela receber cartas de outras árvores, reclamações dos pássaros sobre as condições dos galhos, elogios dos esquilos sobre a qualidade da madeira, cartões de natal pra se enfeitar, essas coisas. eu acredito nessas coisas.

mas há um risco. vai que eu mando e ela cai num buraco de caranguejo ou na casa de um gafanhoto, por engano? ia ser meio chato. será que mando? pensando aqui, a situação mais absurda é o carteiro rir da minha carta e fazer dela aviãozinho de papel.

SIM! talvez aí… talvez aí o vento, que é carteiro de natureza, carregue a carta pra árvore que eu encontrei certa vez num mato lá atrás de um riacho lá.

e mesmo que ela pouse no galho errado sem querer, talvez aí venha um passarinho e voe minha carta rapidinho pra árvore que eu encontrei certa vez num mato lá atrás de um riacho lá.

e mesmo que ele a deixe cair sem querer numa cachoeira, talvez aí a água navegue minha carta direitinho até o pé do riacho que abraça a árvore que encontrei certa vez num mato lá.

eu acredito nessas coisas.

Histórias pra amaciar dentros / 2 /

dia dois é o dia onze de janeiro de 2018:

conheci um moço da noruega dia desses.

ele vinha de um lugar que os mapas escondem. as montanhas e as árvores de lá são tímidas, justificou ele. vendo o cinza que nasceu no meu olho, tirou do bolsa umas canetas e, iluminando o espaço com o silêncio, começou a desenhar num guardanapo. vou te pintar um dia na minha vida, falou, o olho já preso no papel. e aí foi assim:

o dia começa numa manhã de novembro, quando o silêncio fica mais espesso de repente. porque os pássaros saem em viagem e deixam suas árvores pra neve pousar, respondeu ele, antecipando minha pergunta.

lá no meio-dia do dia já é fevereiro. não sem antes bater a neve da bota no tapetinho, ele entra num chalezinho engolido pela barriga da montanha. o sol entra junto, mas o calor que ele trazia era pouco pra pintar toda a casa. sol no inverno tem cor de imagina, falou ele enquanto cuspia uns tons de laranja pelo guardanapo. por isso, porque o sol quase não se via, ele precisar ir até a cabana e deixar uns pedaços de lenha.

à tarde o dia já era junho, e o verão soprava os passarinhos de volta pras suas árvores. toca ópera no céu quando eles chegam, disse, desenhando som-de-ave-que-volta com a caneta amarela. cerrei meu olho e reclamei que não dava pra ver direito. ele sussurrou: som de ave a gente só quase vê. o resto, precisa aumentar por dentro. é tipo a cor do calor do sol no frio. ah!, exclamei, e aumentei tanto por dentro que o por fora também virou parte da cantoria.

o fim do dia chegava no guardanapo e iniciava um início de outono. de pé na varanda, ele toma um café e brinca de contar as ripas de madeira no chão., quando um passarinho pousa do seu lado! de repente, o moço deitou a caneta no papel e o desenho acabou azul da cor da lágrima que lhe pintou o olho naquele momento.

eu fiquei ali, finquei minha alma naquele silêncio e no guardanapo. eu nunca tinha visto a noruega. agora, parece que ela morava em mim. eu também nunca tinha ouvido tanto espaço de alma como carregava aquele moço. o olho dele era largo de montanha, e as palavras tinham traços de vento.

antes de eu ir embora, disse a ele que norueguês soava árvore no meu ouvido. árvore daquelas compridas, robustas, não sei de nomes. ele olhou para mim como quem não entende. um pouquinho de silêncio morou ali entre a gente até que, com testa de sanfona, perguntou curioso: e que língua soa montanha?

 

 

Histórias pra amaciar dentros /1/

Ando grávida de histórias. Tecer palavra a mão, sobre o que vê o olho e sente peito, tá fazendo falta. Por isso, decidi que vou fazer nascer uma história por dia essa semana. Cuspir pro mundo letra e palavra e tudo aquilo que eu coletar no corpo durante sete dias. Não há caminhos temáticos definidos. São só histórias que nascem da necessidade de amaciar meus dentros. Quem sabe elas sirvam pra amaciar dentros de outras pessoas, e fazer respirar e esticar sorriso e tirar pesinhos da alma e alongar o olho. Quem sabe elas plantem no peito de alguém calma de árvore.

*

dia um é o dia dez de janeiro de 2018

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pendurada no galho da árvore, morava uma gota.

parei pra conversar. ela me contou: era equilibrista. seu trabalho era existir ali, naquele galho, naquele instante. e dali a pouquinho, talvez ainda enquanto a gente conversava, sumir.

ela falava baixo que era quase preciso inventar sua voz. mas eu sentia tanto que a palavra virou acessório. virou menor que a gota, que na sua pequenez já abraçava todo meu olho. eu a via tanto, mesmo se a chuva trouxesse mais um milhão de gotas, eu a veria ainda.

viver a vida pra gota fazia sentido em agoras. de agora em agora, ela seguia ficando seus pés d’água na madeira. mas ela não tinha a ilusão de virar a madeira, nem mesmo uma estalactite. ela só sabia viver de provisórios. era equilibrista de nascença. a vista desse galho aqui é bonita, ela me disse, mas talvez daqui a pouco ploc. eu sorri.

com medo de não aguentar o ploc da gota, fechei o olho de leve e agradeci. desejei um bom dia, mas talvez fosse coisa demais, pensei depois.

fui andando devagarinho, pra não acordar as minhocas da terra. vai que elas se mexem e o chão ouve e acorda a árvore que sacode o galho e a gota cai?

enquanto seguia meu caminho, pensava como seria o fim da gota. será que ela acaba mesmo, mesmo? ou será que ela, equilibrista que é, se pendura no ar e fica suspensa por ali, escondida no invisível?